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IROHA

Assim como denominamos nosso alfabeto pelas letras ABC (por começarem com essas letras), Iroha (denominado pelo mesmo motivo) é um poema que apresenta uma visão fatalista da vida
Também é tido como um jogo de baralho com 48 cartas distribuídas aos jogadores (geralmente crianças), onde cada carta traz uma sílaba do poema e cada criança retira uma carta e vê a sílaba que saiu, dizendo em seguida um provérbio que comece com aquela sílaba. Ganha aquele que primeiro ficar sem carta nenhuma na mão.
O interessante do Iroha é que só aparece uma vez cada sílaba do alfabeto com exceção do N (porque não existe palavra que comece por ele) e sílabas da parte composta e complementar (com exceção do KYOU – acrescentado em uma apologia a Kyoto: metrópole). Isso é também utilizado como uma grande didática para que aprendam o alfabeto, apesar de conter duas sílabas arcaicas (WE e WI). Abaixo, segue exemplos de provérbios que podem ser ditos no jogo:

De tons cinzentos embora,
Adejam para baixo os botões.
Tal como neste mundo,
Quem fica para sempre?
Galguei hoje da existência
A breve montanha.
Um fugidio sonho vislumbrei,
Mas não me inebriou.

I. (Iya, iya, san ba i) « Não quer, não quer… mas esvazia três copos » — Assim se dá, frequentemente, com certos amadores da boa pinga, e ainda noutras circunstâncias. O provérbio corresponde de certo modo ao nosso « Quem desdenha, quer comprar »
II. (Rongo yome no rongo shirazu) « Ignorância dos livros de Confuciu após leitura dos livros de Confucius » — Refere-se o conceito àqueles que lêem, e ficam sem saber o que lêem, por falta de elementos que lhes
facultem aproveitamento.
III. (Hari no ana kara, ten nozoku) « Contemplar o céu pelo fundo de uma agulha » — Isto é : empregar meios mesquinhos para largos cometimentos.
IV. (Nikumarego wa yo ni habikor u) « Moço detestado, moço afortunado » — Acontece muitas vezes que a pouca estima que merecemos é um poderoso incentivo a porfiarmos na conquista da ventura.
V. (Hotoke no kao mo san dó) « Não batas na face de Buda mais de três vezes » — Porque a benevolência tem limites ; sucedendo que ainda os mais santos, quando atormentados insistentemente, se encolerizam contra o agressor.
VI. (Heta no nagadangi) « O longo sermão do bonzo boçal » — Com efeito, é dos ignorantes ou dos ineptos que se devem esperar os discursos mais prolixos.
VII. (Tofu ni kasugai) « Reunir os pedaços de geleia com braçadeiras de ferro » — Refere-se à inutilidade de certos expedientes.
VIII. (Jigoku no sato mo kane shida i) « Até as sentenças do inferno se compram a dinheiro » — Conceito embebido de amargo cepticismo, sublinhando a triste verdade de que o dinheiro é a mola real de todas as empresas… não só neste mundo, mas até no inferno.
IX. (Ringem asé no gotoshi) « As palavras do Imperador são como uma transpiração » — Ora aqui está este conceito, que só pode ser compreendido por. uma afectibilidade japonesa. Os japoneses ligam ao suor, à transpiração, uma ideia de serena exalação ; o suor é, com efeito, não um fenómeno, mas sim uma série de fenómenos, sucessivos, contínuos. Os japoneses prestam assim culto humilde e respeitos ao verbo solene do soberano, verbo que se não repete, mas se exale e se expande, como uma transpiração, como um perfume.
X. (Nuka ni kugi) « Pregar pregos em sêmeas » — Esforço inútil, trabalho quimérico.
XI. (Rui wo motte atsumaru) « A semelhança reúne entre si as coisas » — Vereis as borboletas com as borboletas, os camelos com os camelos, os poetas com os poetas, os marujos com os marujos. Os ingleses têm um rifão que exprime bem a ideia : « Birds of a feather flock together ».
XII. (Oni mo ju hachi, já no hatachi) « 0 diabo até aos dezoito, o dragão até aos vinte » — É o que os franceses chamam — La beauté du diable — ; durante um certo período da juventude, mesmo os mais repelentes monstros, como o diabo e o dragão, oferecem atractivos.
XIII. (Warau kado ni wa, fuku kitar u) « Em casa onde se ri, entra a fortuna » — A felicidade procura a gente alegre, não favorece os taciturnos.
XIV. (Kawaiko ni wa, tabi sasé) « Faze correr mundo ao filho que estimas » — Ajuntarei : para que complete a sua educação, pela experiência das coisas e dos homens.
XV. (Yomé, tômé, kasa no uch i) « Pela escuridão da noite, a longa distância, meio-oculta por um chapéu de chuva » — Três circunstâncias em que a mulher feia pode parecer bonita. Nós temos um provérbio de certo modo equivalente : — « De noite, todos os gatos são pardos ».
XVI. (Tatéita, miz u) « Vazar água sobre a tábua a prumo » — Inutilidade de um esforço disparatado.
XVII. (Rengi dé, harakir u) « Querer abrir-se o ventre com uma mão de gral » — Ainda a inutilidade de um intento, pela má escolha dos meios. No antigo Japão, era frequente o suicídio do Harakir i, abrindo-se o paciente o ventre ; o sabre era o instrumento indicado ; uma mão de gral seria, convém, o utensílio menos próprio.
XVIII. (Sudé no fari awasé mo taseu no en) «Mesmo o roçar passageiro de duas mangas que se encontram é o resultado de uma ligação contraída numa anterior existência » — Provérbio amoroso, explicando os fenómenos de simpatia por atracções misteriosas, de vidas passadas.
XIX. (Tsuki yo ni, kama nuka) « À luz do luar, pode ser roubada a panela » — Aconselha a ser cauteloso em tudo e sempre, pois a mais simples circunstância fortuita pode ser causa de graves dissabores.
XX. (Neko ni goban) « Oferecer moedas de ouro a um gato » — Corresponde ao nosso : « Manteiga em nariz de cão ».
XXI. (Nasu toki no Enuma gao) « Em ocasião de pagar dívidas… cara do rei dos infernos » — Não tereis observado, em tais ocasiões, muitos maus pagadores revestirem-se de estranha arrogância, no intuito de intimidarem os credores ?
XXII. (Rai nen no koto iu to, oni warau) « Quando se fala em projectos para o ano que vem, ri-se a diabo » — São tantas as contingências que, durante um ano, podem modificar as deliberações tomadas, que, em boa prudência, não se devem tomar a sério.
XXIII. (Mumá no mimi ni kazé) « Vento em orelhas de cavalo » — Indiferença, apatia ; o cavalo não se rala com a brisa que lhe assopra às orelhas.
XXIV. (Uji yori sadach i) « Mais vale a educação do que um nome ilustre de família » — Passa sem comentário.
XXV. (Iwashi no atama mo shinjin kara) « Até uma cabeça de sardinha pode servir de objecto de culto » — Deve entender-se por isto que pouco importa o deus que se adora ; o que nos salva é a fé.
XXVI. (Nomi to iwabá, tsuji) « Se te pedem o escopro, traz também o martelo » — Há coisas que se ligam por uma íntima dependência ; quando uma é requerida, bom é que venha logo a outra, para não perder tempo.
XXVII. (Otako ni oshierare asasé wo wataru) «As cabritas do velho, fala a criança de maneira a pretender ensinar-lhe a passar a vau a ribeira » — O provérbio pode ser interpretado num irónico sentido, correspondendo ao nosso : « Os filhos de Coimbra nascem para ensinar seus pais », mas pode também representar a cooperação eficaz da inteligência, dirigindo a força ignorante.
XXVIII. (Kusatte, mo tai) « Podre, mas sempre pargo » — O pargo, tai, é um peixe de grande estima na mesa japonesa. O provérbio indica que as grandes coisas, como as grandes pessoas, mesmo em completa ruína, guardam vestígios da sua distinção.
XXIX. (Yami ni, teppô) « Fazer uso da espingarda, às escuras » — Inutilidade de um esforço quimérico.
XXX. (Makanu tané wa hayenu) « Semente não semeada não germina » — Se queres colher benefícios, dá-te ao trabalho de cultivá-los.
XXXI. (Gei wa mi wo tasukeru) « As artes sustentam » — Por outro modo : « Quem possui prendas de educação, beneficia delas ».
XXXII. (Bushi wa kuwanedo taka yôji) « O samurai pode mitigar a fome a palitar-se os dentes » — Referência, palpitante de emoção, à compostura do samurai, isto é, do guerreiro, que sofre dignamente todas as privações, mesmo a fome, palitando-se os dentes, como se acabasse de jantar com um nababo.
XXXIII. (Kore ni koriyo dôsaibô) « Toma cuidado ! Lembra-te do bonzo que foi contra os seus votos !.. » A figurinha alegórica representa um bonzo em face de um polvo enorme, em posição ameaçadora, visto provavelmente em sonho. Lembremo-nos de que aos bonzos é defeso, pelas suas leis canónicas, o alimento animal. 0 provérbio faz supor que o bonzo petiscou do polvo, e é uma exortação ao cumprimento do dever.
XXXIV. (Yen ni, mo chi no kawamuku) « Em casa do rico, até os bolos se descascam » — AIusão irónica aos cuidados minuciosos de que se rodeiam os abastados.
XXXV. (Téra kara sato he) « Do templo para a aldeia » — O bonzo vai levar um presente aos seus paroquianos. Ora, mantendo-se o templo e os bonzos de subscrições e dádivas do povo, a corrente de favores deve ser na direção da aldeia. O conceito estigmatiza um procedimento em contrário da regra, um acto oposto ao costume.
XXXVI. (Akinai wa ushi no yodare) «Negócio: cuspinheira de boi» — O negócio traduz-se por um trabalho contínuo, mais ou menos produtivo ; lembra (aos japoneses) a cuspinheira do boi, contínua e mais ou menos abundante, na plácida tarefa de ruminar os alimentos. O espectáculo do boi a babar-se sugere a estes asiáticos uma imagem de bom agouro, na lida serena e constante da existência, como ela se passa nesta terra.
XXXVII. (Saru mo ki kara ochiru) « Também o macaco cai às vezes da árvore abaixo » — Mostrando assim que ainda os mais destros num mister podem ocasionalmente errar.
XXXVIII. (Giri to fundosh i) « O espírito do dever e a cintura interior » — Expliquemos o provérbio, que oferece um exemplo curioso do laconismo de certas frases japonesas. Fundoshi é uma cintura interior, à qual poderíamos chamar faixa de pudor, ou antes faixa de limpeza, que o nipónico nunca se esquece de trazer cingida ao corpo. Isto, na ordem material ; na ordem moral, o cavalheirismo japonês compara o sentimento do dever, gir i, a tal artigo ; eis pois as duas coisas que devem sempre estar connosco.
XXIX. (Yûrei no hama kazé) « Cumprimentos do vento da costa » — Junto à costa, em tempo de vendaval, tudo se curva e nos saúda : árvores, mastros, etc. Mas é a saudação dos elementos revoltosos, devastadores ; o que lembra de certo modo o provérbio « Lágrimas de crocodilo ».
XL. (Mekura no kaki no zoki) « Um cego a espreitar por cima de um muro » — Inutilidade de um vão intento.
XLI. (Mi wami dé tôru) « Cada qual passa a vida a seu contento »
XLII. (Shiwambôno kaki no tané) « O caroço do pêssego nas mãos do avarento » — O patusco acabou de engolir o saboroso fruto ; e queda-se perplexo, não se resolvendo a deitar fora o caroço, ele, que tudo guarda.
XLIII. (En no shita no mai) « Pôr-se a dançar debaixo da escada » — Não será vista a dançarina e não receberá os aplausos que merecer. Inconvenientes da extrema modéstia.
XLIV. (Hizagashirá dé Yedo yuki) « A andar de joelhos, se pode chegar a Yedo (Tóquio) » — Com boa vontade, vencem-se as maiores dificuldades.
XLV. (Mochi wa, mochiya) « Em assunto de bolos, consulte-se o confeiteiro » — Cada qual para a sua especialidade.
XLVI. (Senchidé, manju) « Comer bolos na… » — Não me atrevo a completar a frase. A figurinha do baralho talvez possa elucidar completamente os curiosos. O provérbio alude ao facto de que todos os disparates são possíveis, quando a gente não sabe reprimir os seus desejos.
XLVII. (Suzumé hyaku made odori wasurenu ), « O pardal, até aos cem anos, não esquece o hábito de pular » — Referência à persistência dos nossos dotes ou hábitos pessoais.
XLVIII. (Kyô ni inaka ar i) « Na cidade, também está a aldeia » — Basta visitar-lhe os bairros humildes, as ruas afastadas do centro para que esta verdade se revele. Aviso àqueles que se deslumbram com as aparências faustosas, escapando-lhes todavia o reverso da medalha.

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