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LITERATURA

            A cultura literária japonesa é muito diferente das ocidentais; ao longo de centenas de anos desenvolveram-se muitas poesias chamadas de haiku (apesar de dicionários trazerem a forma hai-kai, mais conhecida).
A poesia HAIKU, procura em apenas três versos mostrar todo o sentimento ou percepção da natureza e são assim distribuídos: o primeiro e o último com cinco sílabas e o do meio com sete; por isso, é conhecido como cinco-sete-cinco (ou em japonês gô-shichi-gô). Veja um exemplo de haiku:

            “Shizukessa ya / iwa ni shimi iru / semi no koe”
“No absoluto silêncio reinante / penetra nas profundezas da rocha / o canto das cigarras.”

Ou seja, com dezessete sílabas o poeta encerrou a grandeza da natureza que não mais se ouve hoje por causa do desenvolvimento mundial.
A literatura contemporânea japonesa é tão gradativa e constante no crescimento quanto aprendizado do idioma. Ela traz como base a clássica influência chinesa, mas se compõe basicamente do mesclado entre influência, o pensamento ocidental e sua própria tradição.
Duas obras marcam a história literária do país: Kojiki e Manyoushiru. A primeira trata do registro de casos antigos, narrado em prosa e concluída por volta do ano 712, já a segunda trata-se de uma antologia em vinte volumes com cerca de 4560 poemas escritos por pessoas de diferentes classes sociais: homens, mulheres, jovens, idosos, imperadores, soldados, e camponeses (inclusive anônimos), contribuindo com enorme variedade temática e comovendo com sublime franqueza e simplicidade.
As diferentes formas e temáticas de Manyoushuru podem ser classificadas da seguinte maneira:

BANKA: este estilo refere-se aos sentimentos relacionados à morte, mostrando os costumes antigos do povo japonês no que tange às tradições fúnebres. O formato do Banka pode ser Shoka (poema longo) ou Tanka (poema curto, com 31 sílabas distribuídas do seguinte modo: 5-7-5-7-7). Os poetas escrevem tanto sobre a morte alheia quanto de sua própria, bem como da família real. A palavra Banka é oriundo da literatura chinesa, dos poetas declamados durante a caminhada fúnebre. Embora não haja registro no Japão deste costume, o termo foi incorporado e é conhecido entre a população como “fala elegante da tristeza”.

SOMON: (So, significa “mutualidade” e Mon “ouvir”) este estilo traz a subjetividade como característica e se assemelha ao trovadorismo da literatura ocidental porque o poeta não só expressa sua individualidade, mas também os sentimentos por outra pessoa, não necessariamente no sentido romântico entre sexos opostos como também entre amigos e parentes. Referindo-se basicamente ao encantamento amoroso, não se implica que haja resposta, embora haja destinatário definido. Os Tanka neste caso assemelham-se aos Koiuta (poemas de amor) porque no decorrer dele o interlocutor não revela objetivamente fraternal, maternal ou de amizade a relação estabelecida.
ZOKA: a vida, as aventuras e as viagens da corte japonesa são assuntos tratados nesse tipo de poema, cuja base está relacionada à vida palaciana. Suas temáticas tinham como finalidade enaltecer as antigas capitais, narrarem os festejos e cerimônias palacianas bem como as lendas e os problemas sociais e existenciais (exceto os que não se classificariam como Banka ou Somon). Abrangendo questões sociais como doença, velhice, pobreza, filhos, dificuldades de sobrevivência e fugacidade da vida, dois autores se destacaram: Yamananemo Okura e Otomono Yakamochi.

O século IX foi marcado pela forte influencia dos clássicos chineses, já que a relação entre Japão e China foi maior nesse período. Depois disso, o contato foi rompido iniciou-se um período no qual essa influência foi assimilada antes que os escritores japoneses desenvolvessem seu próprio estilo literário.
O primeiro romance japonês foi escrito por volta de 811, intitulado “Taketori Monogatari” (A história do cortador de bambu) e seguiram outros, tais como “Genji Manogatari”, escrita por Murasaki Shikibu (uma dama da corte Heian), em 1010, com 54 volumes descrevendo o amor e o sofrimento dos nobres e suas damas, bem como a vida na sociedade aristocrática japonesa, a elegante cultura do período Heian e o esteticismo colorido com suave melancolia. A literatura em prosa mais famosa no Japão é “As estórias de Genji”, escrita pela dama da nobreza Murasaki Shikibu, em Otsu, no templo da Montanha de Pedra (Ishiyama dera), antes de sua morte em 1014.
Uma coleção de ensaios estilo poema-prosa também relata a vida diária da nobreza e foi escrita por outra dama (Sei Shonagon) com descrições mais realistas e bem humoradas, sob o título de “Makura no Soushi” (livro do travesseiro), caracterizado por uma sagacidade ímpar.
Nesse período, o Tanka se popularizou entre as damas da corte, nobres e sacerdotes. Foi em 905 que o Kokinshui (coleção de poesia antiga e moderna) caracterizou-se como a primeira antologia de poemas a mando do imperador e, durante os 150 anos de ascensão dos guerreiros aristocratas do século XII, popularizaram-se também os contos de guerra dos quais se destacam Heike Monogatari (A História de Heike, 1223) e Taiheiki (Registro da Grande Paz, 1300) em que o afeminado cortesão é substituído pelo valente samurai. Entretanto, a queda do poder imperial e a destruição da guerra da época tornaram a literatura consideravelmente trágica porque enfatizava as vicissitudes do destino do homem.
Já o Shinkokinshuu (nova coleção de poesia antiga e moderna) traz uma antologia imperial, onde as expressões dos humanos e emoções são feitas de modo simbólico, como, por exemplo, os dois volumes de Tsurezuregusa (ensaios do ócio), escrito por um enclausurado monge budista em 1335, cujo conteúdo se resume a contemplações pensativas que ensinam a alegria da vida temporal e o conceito budista da impermanência das coisas, influenciando inclusive o comportamento do povo japonês.
Apesar de se ter produzido pouca literatura durante o século XVI devido as guerras feudais, o século seguinte compensou tal defazagem, pois ocorreria o renascimento literário de uma nova cultura plebéia, a exemplo dos romances de Ihara Saikaku, onde o realismo vivo e o estilo incisivo são características presentes bem como dramáticas das peças de Shikamatsu Monzaemon que retratava, por exemplo, a ascensão de comerciantes à heróis ou generais mas que terminavam tragicamente em suicídio e não em combate como de costume.
Foi nessa época que o novo formato de poesia surgiu: o Haiku (poemas de três versos com cinco, sete e cinco sílabas), tendo como característica a simplicidade do estilo “lacônico” e a profunda sutileza do conteúdo. Matsuo Basho (1644-94) foi o mais famoso nesta nova forma de poesia que expressa um tema de paisagem, de um sentimento ou de fato histórico.
Todos esses movimentos artísticos se desenvolveram à medida em que o Japão se trancava para o resto do mundo, virtualmente. Durante o século XIX várias correntes do pensamento ocidental (liberalismo, idealismo e romantismo) influenciaram e enriqueceram os escritores japoneses que nessa miscigenação, acabaram bastante famosos. Há livros de Shakespeare, Goethe e Tolstoi, que são tão conhecidos no Japão quanto em seu país de origem, por exemplo, devido a essa influência.
No Japão de hoje, os Mangá’s – revistas em quadrinhos com desenhos bem expressivos – estão em alta, fascinando as crianças, jovens e adultos do mundo inteiro.
Referente ao período atual da Literatura Japonesa, dois expoentes não podem faltar em citação: Kawabata Yasunari e Oe Kenzaburo.
O primeiro nasceu em junho de 1899 e faleceu em abril de 1972. Perdeu o pai médico aos dois anos, a mãe aos três e a irmã logo após. Órfão, ficou com os avós maternos, mas perdeu a avó aos sete e o avô aos dezesseis anos. Formou-se em 1924 na Universidade de Tokyo e, escrevendo sua semi-autobiografia em 1926 (Izu no Odoriko: pequena dançarina de Izu), lançou-se no mundo literário e junto com Yokomitsu Riishi criou a revista Bungei Jidai (A Era da Arte Literária), propondo a inovação da Literatura Japonesa, influenciado ainda pelas correntes ocidentais (Expressionismo, Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo) que – iniciaria o movimento Shinkankakusha (Neo-Sensorilista).
Sua obra mais famosa é Yukiguni (o País das Neves) completada depois de doze anos (1947), traduzida no Brasil pela Drª. Neide Hissae Nagae. Outras duas são consideradas obras primas de Kawabata: Senbazuru (Nuvens de Pássaros Brancos, 1949/51) e Yama no Oto (Som da Montanha, 1949/54). Por essas e outras, tais como:

  1. Kinju (Pássaros e Bichos, 1933);
  2. Meijin (O mestre do Gô, 1942);
  3. Aishu (Melancolia, 1947);
  4. Nemureru Bijo (As Belas Adormecidas,1960/61);
  5. Utsukushisa to Kanashimi to (Beleza e tristeza, 1961/63) e
  6. Koto (A Antiga Capital, 1961/62)

Kawabata recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1968. Morreu em 1972 devido à inalação de gás.
Já o segundo, nasceu quando Yasunari começava a escrever Yukiguni e entrou com dezoito anos na Universidade de Tokyo para bacharelar-se em literatura Francesa, em 1959, apresentando um trabalho sobre as obras de Jean Paul Satre, seu foco de interesse.
Começou a escrever 1957, destacando-se pelo conto Kinyana Shigoto (Tarefa Insólita) e no ano seguinte já recebeu o prêmio Akutagawa pelo conto Shiiku (Animal de Cria).
Em 1963, já famoso, nasce o filho Hikari, com má formação craniana fazendo com que uma nova fase na sua vida leterária surgisse, uma vez que as duas obras mais conhecidas se referem a este assunto, sejam elas: Kojintekina Taiken (Experiência Pessoal, 1964) – onde há uma confissão sobre a recusa inicial do filho e a posterior aceitação da responsabilidade – e  Warera no Kyokio  Ikinobiru michi o oshieyo (Ensina-nos o meio para superar nossa loucura, 1969) que é um conto auto biográfico que trata da relação do filo deficiente com a mãe.
Entre outros tópicos, Oe enfatiza em suas obras o problema social do homem sob o regime de ocupação estrangeira, o seu confinamento, a guerra e as relações de poder. A exemplo, escreveu um ensaio sobre a realidade e os pensamentos das vítimas da bomba atômica intitulado Hiroshima Nato (Notas de Hiroshima, 1965)

Ainda vivo, recebeu o Prêmio Nobel da Literatura em 1994.

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